
(
Faz uns anos, passei São João em Oliveira dos Campinhos, interior baiano, onde no tempo deu algum defeito, o que, à maneira de algumas cicatrizes, fez das suas feições e ambiências algo furtivamente mais belo. Ontem reassisti A Marvada Carne, Mazzaropi e Procópio Ferreira, e não resisti revisitar este meu singelo registro lírico da ocasião.)
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Aquela estrada principia onde aguarda aquele cão.
O arrebol ali rebola bem na anca da matrona
De tamanco, chita e lenta
Resolvida a comprar pão.
João não passou batido nos pacatos arrabaldes.
Lá vai outra com seus baldes de laranja suculenta;
A estrada é lama pura,
O chinelo se arrebenta.
Esse junho enriquecido chora de fertilidade,
E resfria a cidade sem deixar de exuberar
Prazer nos amendoins,
Um a um até o fim!
A matriz dobra seus sinos, a gangorra dobra o galho;
O menino dobra rente à saia erguida pelas mãos -
Nunca se viu tanta poça,
A moça anda bem de olho.
Santo Antônio de antemão se atribula e compadece,
Que já sabe do nó cego que a mulher laça na prece;
Que a feia sonha em dobro,
De dar dó quando é malogro.
O licor da lanchonete é pra comunhão bebûm;
Feijoada no café é pra rebater ressaca;
Pão com ovo! - já dá conta,
Dá sustança à bicicleta.
Curupira passa perto da vereda lá da mata,
E despista o viajante dos perigos do caminho;
Quão furtivo o bom traquina
Nos preserva a cada esquina.
A carola varre a nave da igreja assoviando,
Confabula com o Cristo do azulejo lhe acenando;
Como é firme a sua fé -
Junta à figa o escapulário.
Eu pergunto onde é que é, e o cabôco se reclina;
Se parece um barnabé, mas tem classe de marujo;
Orienta a todo mundo -
Seja ao limpo, seja ao sujo.
Aquela estrada permanece, mas o cão, esse que não -
Foi banido pelo estrondo duma bomba - qual sermão.
Só assoma desde lá
Um burrinho a divagar...
O burrico sua em bicas com resignação tremenda;
E o lugar vai no compasso do seu passo cabisbaixo.
Entre um gole e um som de fole
Rabisquei esta canção, oferenda
Pro meu santo São João -
Numa certa maneira...
Uma inclinação do lábio dizendo
Algo prosaico, bonito que só!
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(
Pintura: Yole Travassos)