6.4.09

MOMENTO DE ARREMEDO


(Poema de Victor Sór | Pintura de Pauline Lim)


É o deserto branco, fábula vazia,
E um silvo de vento na fresta tão fria.

É a voz do penhasco, ecos no canyon nefasto, e lá
Um só pássaro, lasso, mudo de monotonia.

Um cansaço sem lastro no esforço, uma farsa.
Desvontade, dissabor, desvalia...

Pedra aguda riscando a vidraça,
Uma sem cessar agonia.

É o medo mudado de nome - despistando
Seu rastro de traça - alastrado em atroz calmaria.

Um balde de pedras vãs, um canteiro sem obras,
Onde o espontâneo não gerou hortelãs sequer.

A queda que dói de dar cócegas, de tão alta que é.

11.3.09

SUJAS


_____ Uma sujeita jogou
Uma lata na rua

_____ Com discrição de anjo
Catei a lata vermelha

Meu rosto _____ esvaziou-se
Abarcando _____ ambos gestos

A jogadora foi pra mim
Como a lata foi pro cesto

7.11.08

TOQUES



Que a alma passe de ser um vento em pé
e abrace o mundo em movimento;

Que a minar a fé saia da mulher e
inunde de bela que é por si;

Que tudo dôa de ventre rindo em
espasmos de novo espanto:

Que mesmo que tope o pé nas pedras,
estrada é ouro que não tem fim.


(Pintura :::: Lucian Freud)

5.9.08

TRINTA OU MAIS


Deixei passar o frisson,
Pra ecoar no recinto vazio palavras mais amenas.
Afinal, chego também, no cair de outubro,
A completar três dezenas;
E sei que a alma, sem idade, vê o envelhecer como uma novena...
Que embora cantilena, retumba suas datas com novidade.

Eis pois o que digo: segue o rumo firme,
Com grande e são orgulho sem vaidade.

28.8.08

UMA E OUTRA EMMA



(Poema escrito após a leitura de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e antes da assistência - ? - da película homônima, de Jean Renoir)


A ti, a Emma do livro,
Dou-te adeus de antemão
Ante prestes a sessão
Do filme que lhe velará:

Revelada em semblante
Outro e fixo do drama,
Serás outrem, irrefutável,
Ultra-memorável dama.

Adeus, a minha Emma...
A sobreposta imagem, a cena,
Dita tudo, diz cada esgar;

Comove fria, sem o vago torpor
Da minha imaginação de leitor...
O que é cinema senão uma memória
Obrigatória, agora a rodar?

30.6.08

SÃO JOÃO DE LONGE


(Faz uns anos, passei São João em Oliveira dos Campinhos, interior baiano, onde no tempo deu algum defeito, o que, à maneira de algumas cicatrizes, fez das suas feições e ambiências algo furtivamente mais belo. Ontem reassisti A Marvada Carne, Mazzaropi e Procópio Ferreira, e não resisti revisitar este meu singelo registro lírico da ocasião.)

...

Aquela estrada principia onde aguarda aquele cão.
O arrebol ali rebola bem na anca da matrona
De tamanco, chita e lenta
Resolvida a comprar pão.

João não passou batido nos pacatos arrabaldes.
Lá vai outra com seus baldes de laranja suculenta;
A estrada é lama pura,
O chinelo se arrebenta.

Esse junho enriquecido chora de fertilidade,
E resfria a cidade sem deixar de exuberar
Prazer nos amendoins,
Um a um até o fim!

A matriz dobra seus sinos, a gangorra dobra o galho;
O menino dobra rente à saia erguida pelas mãos -
Nunca se viu tanta poça,
A moça anda bem de olho.

Santo Antônio de antemão se atribula e compadece,
Que já sabe do nó cego que a mulher laça na prece;
Que a feia sonha em dobro,
De dar dó quando é malogro.

O licor da lanchonete é pra comunhão bebûm;
Feijoada no café é pra rebater ressaca;
Pão com ovo! - já dá conta,
Dá sustança à bicicleta.

Curupira passa perto da vereda lá da mata,
E despista o viajante dos perigos do caminho;
Quão furtivo o bom traquina
Nos preserva a cada esquina.

A carola varre a nave da igreja assoviando,
Confabula com o Cristo do azulejo lhe acenando;
Como é firme a sua fé -
Junta à figa o escapulário.

Eu pergunto onde é que é, e o cabôco se reclina;
Se parece um barnabé, mas tem classe de marujo;
Orienta a todo mundo -
Seja ao limpo, seja ao sujo.

Aquela estrada permanece, mas o cão, esse que não -
Foi banido pelo estrondo duma bomba - qual sermão.
Só assoma desde lá
Um burrinho a divagar...

O burrico sua em bicas com resignação tremenda;
E o lugar vai no compasso do seu passo cabisbaixo.
Entre um gole e um som de fole
Rabisquei esta canção, oferenda

Pro meu santo São João -
Numa certa maneira...

Uma inclinação do lábio dizendo
Algo prosaico, bonito que só!

...

(Pintura: Yole Travassos)

15.6.08

EU VI


Há um ponto em que é difícil decidir pelo término do amor. Ou melhor, do compromisso amoroso. Tudo é tão óbvio que confunde. A tenacidade dos hábitos, inclusos os de gôzo e faltas, e o hasteamento diário da palavra amor, ou qualquer outra que aluda ao enlace... Uma variedade de raízes e cipós que enramam num sistema espesso e teimoso, que resiste por sua complexidade.

Entretanto, o enamorado mais atento, ou exausto, consegue entrever, caída, aquela rútila adaga manchada de sangue e desgôsto. Aquilo que uma cumplicidade sorrateira forjou a quatro mãos. E que o descaso consentido amolou, imolando uma a uma, as possibilidades de um término duro mas honesto.

Por um lado, esse ponto obscuro, bêco sem saídas, parece um nó numa corda. Quanto mais lha esticam, com insisti-la inquebrável, retifica-se mas estrangula os ânimos. Visto assim, o melhor a fazer pode ser driblar as tensões até onde for possível, e abandonar o cabo-de-guerra, o relacionamento. Deixar diluir-se no tempo o travo amargo que sobrevem a tais rompimentos. Resistir em si, e ao outro pelo recordar aquela adaga e sua forja. Pois aí o apêlo é sempre um sintoma, e uma dívida tácita que pode prolongar seu assédio a ambos interminavelmente.

A não ser que, por outro lado, se encare esse ponto como um trecho esgarçado da corda, que o investimento sincero e cego no amor, por si, pode romper. Uma espécie de paroxismo, de abreação. Deixar levar-se às últimas conseqüências. Noivado, bôdas, núpcias, véus postos... e logo caídos por sua própria precaridade. Então ceder, e terminar os passos, uma vez que extinguiu-se o caminho mesmo. Tudo muito sofrido, mas inapelável.

Não se decide por isso com plena lucidez, claro. Algo mais poderoso irrompe nas coisas mortas, ou ajeita o processo de sua dissipação.

...

Parece loucura, mas vi isso acontecer por perto.

...

[Picasso: Cabeça de Mulher]